A favela como potência: a importância de um novo olhar da gestão pública para o desenvolvimento do Rio de Janeiro

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*Por Camila Rocha

Na passagem de 2020 para 2021 viralizou um vídeo da praia de São Conrado [1] cheia de plásticos e lixos no mar e na areia. Para além dos lixos comumente encontrados na praia em uma virada de ano, uma forte chuva caiu na cidade do Rio de Janeiro, revelando, mais uma vez, a fragilidade da cidade quando o assunto é chuva e saneamento básico. Pouco se fala, no entanto, que esse amontoado de lixeira na praia também se deriva dos esgotos e lixões da favela da Rocinha.

Hoje, a maior favela do país, localizada na zona sul e entre os três bairros mais ricos da cidade, possui lixões e esgotos a céu aberto em quase toda sua extensão, que deságua na praia de São Conrado [2]. A forte chuva do início do ano, assim como toda vez que chove consideravelmente, deixou suas marcas na favela: ruas inundadas, esgoto transbordando e lixos em toda parte. Assim, neste ano novo, não foram só os moradores da Rocinha que sofreram com as consequências da falta de saneamento básico dentro da favela. A cena da praia de São Conrado cheia de lixo serve, também, como um sinal de alerta à gestão pública e à população de forma geral: é preciso olhar para as favelas para que a cidade do Rio de Janeiro se desenvolva plenamente.

Segundo o Censo de 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cidade do Rio de Janeiro concentra a maior população em favelas do Brasil. A capital fluminense possuía 1,4 milhões de habitantes morando em 763 favelas – contingente de moradores que correspondia a 22% da população carioca. Em pesquisa preliminar mais recente, o IBGE mostrou que, em 2020, existiam 778 favelas na cidade do Rio de Janeiro – quinze a mais em relação aos últimos dez anos -, com mais 453,6 mil habitações nessas localidades.

Com esses números, podemos ver que os moradores de favela são parte importante da cidade, mas não só em números. O morador(a) de favela faz parte do dia a dia e do funcionamento regular da cidade: é a diarista, é a manicure, é o motorista do ônibus, é a “tia da limpeza” ou o “moço do cafezinho”. É aquele ou aquela que está em nosso dia a dia, mas que muitas vezes parecem “invisíveis” – não só para a população como para o Estado. Paralelamente, é, também, parte da população carioca mais vulnerável em relação a doenças respiratórias, como a tuberculose [3], desastres naturais, habitações irregulares e recorrente ausência do Estado para melhoria e desenvolvimento local.

A crise causada pelo coronavírus mostrou e agravou ainda mais aquilo que já sabíamos que existia, mas que fica ainda mais evidente diante de uma crise sanitária e, consequentemente, socioeconômica: a extrema desigualdade vivida nas favelas colocou seus moradores em uma situação de extrema vulnerabilidade, tanto sanitária quanto financeira. Muitos perderam seus empregos, tiveram que deixar de trabalhar para cuidar de seus filhos, ou até mesmo perderam entes próximos por causa da doença. Em pesquisa realizada pelo DataFavela, 86% dos consultados afirmaram que, caso seguissem as recomendações de distanciamento social, eles teriam dificuldades de comprar comida e itens necessários para sua sobrevivência. Nesse contexto, muitos moradores precisam se expor ao vírus para trabalhar e sustentar suas famílias.

Em relação ao Auxílio Emergencial, 68% das famílias entraram com pedido pelo benefício e em 96% dos casos o dinheiro foi utilizado para a compra de produtos de higiene e limpeza e alimentos. Reforçando a vulnerabilidade das famílias, que, possivelmente, com o fim do benefício entrarão em situação de extrema pobreza, com dificuldades com dificuldades de cobrirem suas necessidades básicas. Nesse quadro, a atuação de Organizações não governamentais (ONGs), por exemplo, foi crucial para o suporte a essas famílias na situação de crise financeira e sanitária em que vivemos. Ou seja, a necessidade da presença dessas organizações no suporte às famílias em situação de vulnerabilidade evidencia a ausência do Estado nesses territórios.

A marginalização da favela, que é comumente reduzida a territórios precários, ilegais, desordenados, inseguros e é estereotipada como territórios ilegítimos das cidades, tem como consequência o chamado “círculo vicioso da pobreza”. Processo este que se caracteriza pela retroalimentação das regiões menos desenvolvidas, nesse caso as favelas, tendo como resultado a manutenção desse ciclo de não desenvolvimento local e continuidade da pobreza – podendo, inclusive, ampliar as desigualdades entre as regiões mais e menos desenvolvidas. É preciso, nesse sentido, um projeto de olhar, cuidar e investir na favela como um lugar de potência. A potência que faz com que a população favelada se reinvente e resista a vida, por meio da arte, abrindo seu próprio negócio, conseguindo aprovação em uma universidade etc., mesmo diante das adversidades.

O lugar de potência, que, meio a essa reinvenção, consegue gerar renda e emprego internamente – com o surgimento de pequenas mercearias, salões de beleza, lojas de roupas, entre outros, que se multiplicam em todo seu entorno. Esses pequenos negócios, no entanto, não limitam seu impacto às favelas, influenciando o aquecimento da economia carioca como um todo – isso diante do alto nível de desemprego e, consequente, informalidade existente na cidade, que se intensifica quando falamos em favelas. Além disso, a favela também é instrumento de inserção no mercado de trabalho de muitos migrantes rurais – de modo que essa inserção aumenta o nível de emprego na cidade, inclusive formal, e a renda da população local.

Vale ressaltar, nesse sentido, que parte significativa da população que vive em situação de pobreza decide por iniciar um negócio ao invés de buscar um emprego devido à falta de escolaridade e qualificação necessária para se inserir no mercado de trabalho. Cabe diferenciar, no entanto, o chamado empreendedorismo por oportunidade e o empreendedorismo por necessidade. O primeiro diz respeito ao movimento de iniciar uma empresa com a perspectivas de novas oportunidades de negócios, enquanto o segundo se refere aos empreendimentos criados como estratégia de sobrevivência – com mão de obra menos qualificada, menos produtivos e menos propensos ao crescimento e criação de novos postos de trabalho. O empreendedorismo por necessidade é visto com mais frequência em favelas e regiões de baixa renda, reforçando o sentido de retroalimentação da pobreza, visto que, mesmo com novos e empreendimentos e geração de renda local para sustentar suas famílias, os moradores tendem a se manter em um patamar de desigualdade, com baixa escolaridade, empregos subvalorizados e de baixa qualidade, mantendo a estrutura desigual e de pobreza nas comunidades.

Isso se relaciona com outro fator importante a ser destacado: a condição escolar dos moradores de favela. O acesso ao sistema educacional tende a ser segregado entre os moradores de favela e não moradores – ou seja, filhos de residentes em favelas recebem educação inferior em relação aos demais e, futuramente, tendem a receber menores salários. Com isso, Ferreira et al. (2016) mostra que uma maior integração escolar tem efeitos positivos para o desenvolvimento da cidade a longo prazo. Segundo o estudo, inserir residentes e não residentes de favelas em um mesmo ambiente escolar reduz, a longo prazo, a proporção de residentes em 13%, além de proporcionar o aumento nos ganhos salariais dos alunos futuramente. Movimento este que poderia levar ao interrompimento do círculo vicioso da pobreza enfrentado pelas famílias faveladas, ainda mais quando estamos falando de uma população proporcionalmente mais jovem quando comparado ao resto da cidade.

Desse modo, a favela, que muitos entendem como um problema, poderia e deveria ser vista como solução. Pode ser um passo importante a ser dado para um desenvolvimento sustentável da cidade – com redução das desigualdades, pobreza e melhorias de bem estar da população. Esse texto, portanto, tem caráter introdutório e busca ressaltar a importância de olhar para a favela quando se pensa a cidade do Rio de Janeiro e o desenvolvimento socioeconômico da população.

A atuação do Estado é crucial no combate às desigualdades existentes na cidade. Desigualdade esta que pode ser mitigada com melhorias no saneamento básico, uma política de habitação adequada, investimento em educação e transporte, entre tantas outras áreas. Investimentos que poderiam levar a reduzir acontecimentos como o do acúmulo de lixos nas praias, esgotos entupidos, ocorrências de desastres naturais e uma consequente redução da proliferação de doenças entre a população diante da melhoria de vida dos moradores. Além de, com a melhoria da condição educacional da cidade, ser possível levar ao desenvolvimento da mão de obra local, estimular a economia e, ainda mais, servir como prevenção da entrada de jovens na criminalidade. A atuação estatal, em um contexto de pandemia, poderia dar suporte econômico e financeiro para as famílias que vivem nas favelas, pensando e colocando em prática formas de minimizar a contaminação, e possibilitando a essa população seguir as políticas de distanciamento social necessárias – refletindo diretamente na evolução da contaminação na população de toda a cidade.


Graduanda em Economia pela UFRJ, Camila Rocha possui experiência profissional em estudos econômicos voltados para elaboração de políticas públicas, além de ter atuado como assistente de pesquisa com foco em indústria e comércio exterior.


*As opiniões expressas neste texto são de exclusiva responsabilidade do autor.

** Foto de divulgação: Unsplash

Notas de Rodapé

[1] Ver: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2021/01/04/praia-de-sao-conrado-tem-onda-de-lixo-apos-temporal-video.ghtml

[2] Ver: https://oglobo.globo.com/rio/governo-promete-implantar-rede-para-captar-esgoto-na-rocinha-que-sofre-com-questao-do-saneamento-23547444?GLBID=19b6422a98d5805b438a51f10ec8d10aa4a665650306b704650333672732d4738714e38777776494c59465672786250436c716b3930346e426d6e56614d5151693063346e6d49353565767046663538667a754152375830364d5452564f49764c7848695f38673d3d3a303a65636f6e6f6d69612e666564657261616f

[3] Ver: https://agencia.fiocruz.br/favelas-e-periferias-do-rio-de-janeiro-sofrem-com-tuberculose

Referências Bibliográficas

[1] DE SOUZA, Jailson et al. As favelas como territórios de reinvenção da cidade. Cadernos do Desenvolvimento Fluminense, n. 1, p. 115-126, 2013.

[2] DE MEDEIROS, Bruna Taize; DEPONTI, Cidonea Machado; KIST, Rosane Bernardete Brochier. O círculo vicioso da pobreza no Brasil: uma análise da estratégia do programa bolsa família nos municípios do Corede do Vale do Rio Pardo. Revista Grifos, v. 26, n. 42, p. 47-75, 2017.

[3] FRANCO, Marielle. UPP–A redução da favela a três letras: uma análise da política de segurança pública do estado do Rio de Janeiro. 2018.

[4] FERREIRA, Pedro C.; MONGE-NARANJO, Alexander; TORRES DE MELLO PEREIRA, Luciene. Of cities and slums. FRB St. Louis Working Paper, n. 2016-22, 2016.

[5] OLIVEIRA, Juliana. A importância das micro e pequenas empresas para a cidade do Rio de Janeiro. RioMais, Rio de Janeiro, 2021. Acesso em: 12/02/2021. Ver em: < http://3.95.111.223/a-importancia-das-micro-e-pequenas-empresas-para-cidade-do-rio-de-janeiro/>

[6] NERI, Marcelo Cortes. Trabalho e condições de vida nas favelas cariocas. 2007.

[7] CERQUEIRA, Daniel Ricardo de Castro. Trajetórias individuais, criminalidade e o papel da educação. 2016.